#30 Fotografia

Plim. O micro-ondas chama Sara para jantar. A lasanha congelada está pronta. “Cinco minutos, nem mais um segundo”, como diz a embalagem. Não fossem estas maravilhas da cozinha moderna e já estaria anoréctica, por simples desleixo. Diz que a vida é curta e não a vale pena passá-la a preparar comida.

 

– Comprar feito é perfeito

Podia ser o slogan de uma marca de refeições rápidas, mas é a síntese do raciocínio de Sara a sair-lhe pela boca. O micro-ondas já a chamou segunda vez. Em casa dos pais não havia disto. Ao primeiro sinal tinha de estar sentada à mesa, senão o armagedão abatia-se sobre a sala. Agora é livre, o jantar que espere mais um pouco.

Sara está no quarto, a experimentar os trapos novos. Desaperta o vestido atrás do pescoço e deixa-o deslizar até ao chão. Passa um pé, depois o outro, sem o pisar. Pega no top azul turquesa, com duas flores brancas, simétricas. Ajusta-o ao corpo. Click, uma foto. Mais uma peça de roupa. Click, outra foto. A primeira vez de cada pedaço de tecido tem de ficar registada. É um ritual, uma mania que nasceu há muitos anos, quando lhe deram a primeira máquina fotográfica.

A lasanha já arrefeceu. Não faz mal, vai dar ao mesmo. Sara pega no prato, larga-o sobre a mesa da cozinha. Liga a televisão e come, sem desviar a atenção do ecrã. Acaba, despeja o prato no lava-louça. Desliga a televisão. Muda-se para a sala, atira o corpo para o sofá. Adormece.

A porta de mogno separa-o do motivo que o levou até ali. Ergue o braço e bate-lhe. Noc, noc, noc. Três vezes, como as pancadas de Molière. Noc, noc, noc. Três vezes, para afugentar o azar. Ele é actor sem palco, artista à procura da sorte. Na mão esquerda um ramo de flores, na direita a câmara profissional. Ela abre e assusta-se

– Eduardo, o que fazes aqui?

Ele larga-lhe o ramo nas mãos.

– São para ti.

Ela fecha os olhos e cheira. Ele pega na câmara e dispara. Aquela imagem ficar-lhe-á gravada na memória. A expressão serena numa cara resistente às rugas. O nariz em pulsação a absorver o perfume. Os olhos a abrir lentamente, como a acordar de um sono profundo. É a última recordação feliz que tem de Sara. A seguir vem o descalabro.

– Escuta o que vou dizer. Só o faço uma vez, percebes? U-ma vez! Não quero ver-te. Tiveste o teu tempo. Sabes lá quanto esperei, sofri, chorei. A tua volta ao mundo foi a minha travessia dos horrores. Primeiro temi pela tua vida. Tu nada dizias, não fazia ideia por onde andavas a fotografar, que riscos corrias. Podias já estar morto e eu ainda à tua espera. Depois pensei que me tinhas esquecido. Disseste que era um ano, entretanto passaram três. Voltaste a Portugal. Agora chegas aqui, como se nada fosse, e pensas que sou tua? Vai-te li-xar.

As sílabas saem-lhe mesmo assim, separadas. Tão separadas quanto eles estão neste momento. A porta fecha-se, é apenas um rectângulo de mogno, mas cava-se ali um fosso do tamanho do mundo que Eduardo percorreu nos últimos anos. Ele ainda não se mexeu. Pés em cima do tapete. Braços caídos, derrotados. A alça da câmara pendurada no ombro direito. As flores desfeitas, espalhadas pelo chão.

A porta reabre-se. No corpo de Eduardo renasce a esperança. Na mão de Sara está a máquina de fotografar trapos. Na cara de Eduardo espreita uma lágrima. Da câmara de Sara sai um flash. No olho de Eduardo encolhe-se a pupila, a gota de água salgada cai. A paixão que outrora os unira desaparece de vez.

É segunda-feira. Estação, comboio, estação. O caminho de todos os dias. Sara vem dos subúrbios para o centro, das extremidades para o coração da cidade. Hoje precisa de renovar o bilhete de identidade, já caducado. Mas não tem fotos tipo passe. Procura uma cabine, daquelas que prometem quatro, oito, dezasseis retratos em menos de nada. É incrível como tropeçamos nelas a toda a hora, excepto quando nos fazem falta.

Encontra uma, mesmo à saída da estação. Espreita pela cortina, esticada de uma ponta a outra. Não está lá ninguém. Entra. Senta-se no banco. Um euro, dois, três, quatro. Prepara o sorriso número 24. Repara numa mensagem, escrita à mão, letra de homem, colada por baixo do botão que está prestes a pressionar

“Não carregues, pára. Vais odiar essas fotos. Vais achar-te feia. Eu tenho a solução. Anda, estou cá fora à tua espera.”

e tira os dedos, sem carregar. Espera um minuto. Morde o lábio, ajeita o cabelo. Levanta-se. Com a mão esquerda afasta a cortina. De frente para ela está um homem. Mede-o de alto a baixo. Deve ser da idade dela. Pele branca, olhos verdes, cabelo castanho. Barba e bigode da mesma cor. Um casaco preto sobre uma camisa cinzenta. Umas calças azuis. Uns sapatos bege. Uma boca que se abre

– Vem comigo

para um pedido que é como uma ordem. Ela obedece. Uma rua a subir, outra a descer. Um prédio à esquerda. Porta abre, porta fecha. Junto às escadas um papel

“Em caso de perigo não use o elevador nem as escadas. Salte pela janela.”

obra de um miúdo. Outra porta. Um apartamento transformado em estúdio. Uma sala, mais outra, três salas. Um banco igual ao da cabine

– Senta-te ali

e ela ajeita-se ao lugar. Click, uma foto. Sem ensaios nem sorrisos forçados. Sem flashes nem lâmpadas, que ele não gosta de nada disso. A luz sai pelas faces de Sara e voa até à lente, chega à câmara, espalha-se pelo LCD. Um rectangulozinho com um rosto pálido mas belo. Ele fica convencido à primeira. Ela corre para ver o resultado, uma maravilha. Morde o lábio, ajeita o cabelo

– Como te chamas?

– Eduardo.

Amam-se nesse dia e no outro. No mês seguinte e no ano que vem depois. E mais, mais e mais. Não passam 24 horas sem se ver, sem se tocar, sem se fotografar. Ele entrega-lhe a sua primeira câmara digital, comprada com o primeiro emprego, seis anos antes

– Toma, é para ti. Aproveita. Mas segue este conselho: não uses o flash. Nunca. Quando o disparas matas a alma e destróis o coração de quem estás a fotografar

publicado por Rui Catalão às 00:00 | link da história