#29 Espera

A surdez de uma cave afundada em música. É uma bomba sonora, os estilhaços apanham a multidão em movimento. A dança dos corpos espalha o efeito, que se estende por todo o salão. Filipa deixa-se levar, abraça a noite como os lençóis da cama, o álcool como almofada. Pela mini-saia espreitam umas coxas firmes, envolvidas numa fina camada preta de náilon. É nelas que está o coração de Filipa, que bate ao ritmo alucinante do som.

 

Alienação. Um grupo de três homens desce as escadas. O porteiro não costuma deixar passar tanto macho sem uma menina pelo meio. Hoje abriu uma excepção, têm todos um aspecto cuidado. André, Carlos e Nuno. À medida que se aproximam da multidão também eles são absorvidos pela bomba, invadidos pela surdez e pelo ritmo. Dançam-se com empenho mas sem jeito, muita vontade e pouca habilidade.

 

O peito de Filipa decorado com pétalas amarelas. Um girassol nela, vestida de flor numa cave escura. Pelo salão há animais e monstros e enfermeiras e homens feitos mulheres e jogadores de futebol e padrinhos e mariachis e presidiários. Ela prefere um guerreiro de armadura e espada, saído da Europa medieval mas com um copo de plástico na mão que não deve ter mais de dois anos.

 

O contraste dá-lhe para rir. Dele, da figura dele, do copo com a figura dele. Também a leva a aproximar-se. Ele intriga-se quando a vê passar a meio metro, pétalas no peito, náilon nas coxas. Não volta a perdê-la de vista. A surdez desvanece-se, os sentidos apuram-se. Espera pelo momento certo e avança. Ela vira-se para ele, como faz a planta que simboliza para a estrela que a alimenta

 

– Estava a ver que nunca mais vinhas

– Saber aguardar pelo momento certo é uma virtude

– Prazer, sou a Filipa

 

e um beijo redondo na cara

 

– Muito gosto, o meu nome é Carlos

 

e em vez de responder da mesma forma dá-lhe a outra face, à espera do par. Ela hesita, depois avança. Ele larga a espada, agarra Filipa e conduz-lhe o corpo ao sabor da música. Dançam, mas não ouvem a batida que sai das colunas. São só eles, um momento a dois

 

– O que fazes, Filipa?

 

ela pronta a contar

 

– Sou técnica de turismo. Vou estudar para o Brasil durante um ano.

 

Carlos ouve, abana a cabeça e beija-a. A música pára, agora não só para eles, para todos. Hora de sair. O nariz dela no dele. Os dentes de cima alinhados com os de baixo, um sorriso. O girassol tem de ir para casa, o voo é daqui a cinco horas e o Rio de Janeiro à espera. A pena nos olhos dela, a fé nos dele. Antes da despedida uma curiosidade

 

– E tu, o que fazes?

– Sou esperador profissional.

– Esperador?

– Sim, espero pelas pessoas onde for preciso e o tempo que for necessário.

 

Ela partiu. Ele esperou. Deixou o emprego, mas manteve o local de trabalho mais frequente, as chegadas do aeroporto. Nas mãos um papel

 

“Filipa”

 

e um girassol. No rosto a esperança de a ver surgir. Um ano depois lá está ela. Traz o sol na pele e atira-se aos braços dele como uma abelha em busca do néctar.

 

– Esperaste por mim

– Era preciso

 

Desde esse dia só esperou mais uma vez. Três anos depois, no altar. Ele à guerreiro medieval de espada na mão. Ela à girassol de pétalas amarelas no peito, duas horas atrasada. Antes do sim e do beijo, um sussurro

 

– Este é o momento certo.

publicado por Rui Catalão às 00:00 | link da história