#26 Delírio

O frio é um fantasma que lhe desce pelas costas, por dentro da camisa. Não assusta, não assombra. O frio tem medo de ser frio, por isso esconde-se atrás de um corpo quente. Um arrepio. É o frio a encolher-se, com medo de ser esmagado por um casaco ou sufocado por um cachecol.

 

Uma mesa, vinte botões amarelos, três pretos, cinco verdes, nove azuis. Um amarelo para cima, uma chuva miudinha bem lá no fundo

 

– Bom dia, este é o Hoje é Dia, o magazine da obediência na sua Rádio Pirata

 

que afinal é bem mais graúda do que parecia. Os cabos fazem mau contacto, o som electriza-se pela sala feita estúdio. Um som agudo entre as paredes. Um arrepio. Ela puxa o botão amarelo para baixo, levanta-se e anda em círculos pela divisão.

 

Lida mal com fracassos. No fim-de-semana passado transformou a cozinha numa caixa de banha, tudo frustração por não ser capaz de fritar umas batatas e uns bifes sem os queimar. Frigideiras no ar, óleo a voar, um nojo de cenário. O estúdio até está limpinho, o problema não é esse. A fórmula está errada, o sinal não sai, a voz que diz

 

– Bom dia

 

e toda aquela lengalenga já mecanizada, que por acaso é dela, não passa do microfone, não chega sequer ao botão amarelo. Estudou para ser a melhor. Na teoria não há dúvida, os diplomas emoldurados a ganhar pó no fundo do baú dizem que é verdade. Estão enterrados naquele túmulo para não ter de ouvir

 

– A nossa filha é sobredotada. A nossa filha vai ser muito importante. A nossa filha é o nosso orgulho

 

a pressão, as expectativas, a hipótese da desilusão. A prática está em jogo aqui e agora. Na ambição cabe tudo quanto o mundo tem para dar. Cabe o frio do medo e o medo do frio. Ela tem o calor nas mãos, o fogo no cérebro. E um arrepio.

 

Montou um plano. Ao longo dos anos testou um conjunto de frequências sonoras que se misturam com a voz para produzir um efeito instantâneo. Não é hipnotismo, não é uma droga, é um efeito. É magia, dirão alguns.

 

Já não há feedback, ela de volta à mesa. Vinte botões amarelos, três pretos, cinco verdes, nove azuis. Um amarelo para cima, desta vez também um verde, não há chuva miudinha

 

– Bom dia, este é o Hoje é Dia, o magazine da obediência na sua Rádio Pirata

 

nem um frio, nem um arrepio, e os botões novamente para baixo. O som passou para lá das paredes, viajou pela corrente e reproduziu-se um pouco por todo o lado. Nos países com outras falas ninguém entendeu. Por cá e no Brasil e em São Tomé e Príncipe e em Angola e em Moçambique e na Guiné-Bissau e em Cabo Verde e em Timor Leste quase todos ouviram. O sinal chegou a todos os aparelhos com áudio, desde telemóveis a televisões, de auto-rádios a estádios de futebol.

 

O efeito, o tal efeito, foi devastador. Uma em cada dez pessoas enlouqueceu de imediato, pensou estar a ouvir uma voz na sua cabeça. A maioria foi possuída por um sentimento de respeito, de dever, de obediência. Homens transformados em marionetas. A Terra nas duas mãos e na boca de uma líder, ela.

 

Botão amarelo, botão verde, na sala uma voz masculina

 

– Patrícia? Está tudo bem, Patrícia?

 

e ela calada. Imaginou que o mundo a ouvia, que o mundo a respeitava. Não há Rádio Pirata, muito menos um magazine. Há diplomas, mas das olimpíadas de tudo e mais alguma coisa e não de licenciaturas e mestrados e doutoramentos. Não há efeito, apenas uma chuva miudinha, no fundo, atrás do professor

 

– Patrícia, vai fazer o exercício ou não?

 

o microfone aberto, ela fechada. A sobredotada, a importante, o orgulho dos pais. E ela fechada. Um arrepio. O frio do medo nas costas de um corpo fracassado. A febre não pára de subir. Cama. Um delírio.

publicado por Rui Catalão às 00:00 | link da história