#23 Livro

Quando se apercebe é tarde de mais. Alfredo perdera-se num pensamento recorrente, uma ideia que lhe povoava a mente com frequência. Tinha a estrutura pensada, as personagens traçadas, o desfecho decidido. Tinha um livro todo na cabeça, à espera de passar às mãos e depois ao teclado e mais tarde ao papel e por fim à livraria e quem sabe a um prémio de escrita. Pensava nisto e deixava-se embalar numa viagem que termina abruptamente, com a constatação de que olha para a mesma pessoa há vinte minutos.

 

A divagação levou-o a fixar uma rapariga. Óculos na cara, garfo numa mão, livro na outra. Devora um bolo de limão e uma colectânea de contos de um autor pouco conhecido. Desvia-se da leitura e da degustação e esbarra na figura de Alfredo. É um acidente a alta velocidade, um choque frontal, uma ligação imediata. Ela sorri com metade da boca, só o lado esquerdo, o direito persiste na timidez. Ele disfarça, controla o efeito da atracção, uma droga que manda na cabeça e no coração e em tudo.

 

O jogo do gato e do rato continua. Procuram-se sem tentar, encontram-se sem sair do lugar. O tempo e as pessoas e os cafés e os sumos e os bolos e as sandes passam por eles e eles imunes a qualquer distracção. O livro na cabeça de Alfredo ganha outra forma, uma nova protagonista, que se desenha mesmo à sua frente. Precisa de escrever, de descrever aqueles cabelos e aqueles olhos e aqueles lábios. Até o ar lhe sabe a limão e a contos.

 

Ela acaba o bolo, fixa-se no livro. Ele acaba de repensar o livro, fixa-se nela por mais um momento e sai do café. Quando ela o procura Alfredo já não está lá. Nem um bilhete, nem um aviso, nem nada.

 

Casa. Quarto. Na mesa o computador, um copo de vinho e um caderno. Na primeira folha um retrato, no ecrã uma página em branco. Mãos no teclado, tectectectectectectec, um parágrafo.

 

“Tento e não consigo. O limão é ácido, o limão corrói. O limão naquele bolo é uma arma apontada à minha boca. Ela dispara-a e acerta-me, mesmo sem querer. Cheira-me a limão, sabe-me a limão. Na verdade não sei a que cheira, não sei a que sabe. Mas imagino-a assim, ácida e corrosiva, como o meu fruto preferido.”

 

Desfaz e refaz o parágrafo. Não gosta, desgosta. Desiste. Mergulha na cama. Assim que adormece ela deita-se ao lado dele. Passa ali horas, até um pouco da manhã, até o brilho comer a noite à dentada, até ser tudo luz e nada escuro. Quando ele abre os olhos ela já não está lá.

 

Universidade. Sala. Alunos diante de Alfredo. A aula é de teorias e crítica da arte, a primeira do semestre. Se fosse outro professor o auditório estaria vazio. Com Alfredo, conhecido pelos discursos inspirados, há casa cheia. As dezenas de meninas suspiram enquanto apontam tudo o que ele diz. Excepto uma, no canto, lá em cima. Não tem papel, não tem caneta, apenas uma sugestão em forma de pergunta

 

– Já pensou escrever um livro, professor? Parece ter tanto para contar

 

que chega ácida e corrosiva a Alfredo. O fruto preferido torna-se proibido.

 

– Estou a tratar disso. Mas não é o momento para falar no assunto

 

ambos sabem onde é, no café, com bolo e com livro, um colado ao outro, ela a cheirar a perfume, não é de limão mas para ele é como se fosse. Beija-a e sabe-lhe ao fruto preferido, o calor e o ardor. O livro aberto, uma história ao acaso, fala num professor e numa aluna, fala neles e conta-lhes o fim da história. Ele perde-se de amores, ela só queria uma boa nota na cadeira.

publicado por Rui Catalão às 00:00 | link da história