#09 Coelho

As rotundas são carrosséis para gente adulta. Não têm póneis nem cadeiras rotativas, como os das crianças. São bolachas recheadas, com sabor a alcatrão, onde os carros se alimentam de asfalto. No centro pode estar a mais bela das esculturas, que o mais certo é passar despercebida. Ali até um ser vivo acaba ignorado.

 

Gabriel passa dez horas por dia sentado junto a um banquinho de madeira. Tem os olhos mais redondos do que a rotunda, os mais tristes que aquele pedaço de terra conheceu. Debaixo de uma árvore mira umas ruínas romanas, ao longe, quase a fugir do horizonte. Não se deixe enganar, Gabriel não se interessa por História. As ruínas são uma escapatória, em frente, sempre em frente, para não ver os carros.

 

A sombra da árvore, de aspecto cansado e seco, cobre-o por inteiro. Alcança também uma pequena tabuleta, enterrada um pouco adiante.

 

“Amo-te Pinguim”

 

Uma parte da madeira já caiu, vencida pelo desgaste das chuvas e da poluição. A mensagem ficou, foi-se apenas o coração desenhado ao lado. No imaginário de quem ali passa, a placa terá assentado ali pela mão de um rapaz apaixonado por uma rapariga com andar de pinguim. Ou de uma miúda que chamava assim pelo namorado. São leituras lógicas, serão verdadeiras?

 

 

A expectativa de Rodolfo é grande. Andreia disse-lhe que viria, àquela hora, sem falhas

 

– Porque a Andreia nunca se atrasa.

 

Mas passam 20 segundos e Rodolfo ainda está sozinho, Andreia nem aparece, lá longe, junto às ruínas. Ele vê a árvore, vai à procura de frutos. É um pinheiro e não tem nada que se coma. Mesmo assim ele trepa, pelo menos lá de cima tem uma vista melhor. Andreia, Andreia, Andreia. Passa um minuto.

 

Os carros giram sobre o carrossel. Há um acidente, um homem sai à bruta, com um taco de basebol na mão. O outro assusta-se, é tarde de mais para fugir, já levou uma tacada na cabeça. Cai no chão

 

– Chamem uma ambulância!

 

Reclama-se, sem que alguém pegue no telemóvel e marque o 112. O homem está no chão, a esvair-se em sangue. O outro já guardou o taco, senta-se agora ao volante e segue viagem. Tem a traseira do carro amolgada, uma parte a arrastar no chão. A chiadeira prolonga-se na estrada, mas perde força ao afastar-se.

 

Rodolfo assiste a tudo lá no alto, sentado num ramo. É ele quem liga a pedir a ambulância. Por vontade dele chamava também a polícia, para procurar a Andreia, que devia estar aqui há 20 minutos. Não seria a primeira vez que o fazia. Um dia, num passeio pelo Gerês, deixou de a ver. Esperou, como hoje. Inquietou-se. Ao fim de meia hora ligou à polícia. Ficou louco com a resposta

 

– Ainda só passaram 30 minutos, é pouco tempo.

 

Ainda? Para ele era já tempo a mais. E quando ela apareceu com uma surpresa nos braços, um coelho, Rodolfo perdeu a postura e deu-lhe uma descompostura. Mesmo assim ganhou um amigo, passaram para uma relação a três. O coelho fica em casa dela, por vezes na dele. Andreia leva-o para todo o lado. É famoso no bairro, conhecido além dele. Tem uma espécie de penteado que o distingue dos outros. E é um fácil, deixa-se pegar por qualquer um.

 

– Um dia ainda vamos ter um desgosto por causa disso

 

É o pensamento de Rodolfo. Mas agora está concentrado no atraso de Andreia. A ambulância vem logo para levar o homem espancado. Uéuéuéuéuéué. Dela saem duas pessoas, um enfermeiro e um técnico. Correm para o ferido e num instante põem-no na carrinha. Fecham as portas, entram, partem. Uéuéuéuéuéué.

 

Rodolfo perde-os de vista, pela linha que acaba nas ruínas. No sentido inverso vem um vulto. A cada metro a imagem fica mais clara e nítida. Será Andreia? É capaz. Mais um metro. Parece que sim. Mais um metro. É muito provável. Mais um metro. É mesmo Andreia. Mais um metro. E traz o coelho ao colo, como um bebé.

 

A excitação empurra Rodolfo do ramo até lá abaixo. Magoa-se, raspa o braço e tem uma costela a fugir do sítio. Mas dores ficam para depois, é hora de ver Andreia e o coelho. Um beijo nela

 

– Pensei que te tinha acontecido alguma coisa

 

uma festa nele

 

– Lindo menino

 

e uma urgência em sair dali. Rodolfo agarra-se aos dois, atravessa a rotunda. Um carro apanha-o desprevenido, Andreia vai atrás, por pouco não são atropelados. Gabriel cai dos braços dela, com o susto foge. Eles no chão, ele a correr. Eles já em pé, ele a correr. Eles à procura, ele já longe.

 

Durante três meses fazem turnos à volta do carrossel da rotunda. Andreia busca em cada recanto, na árvore, na terra, no entulho e nada. Até tem um terceto só para ele

 

“Carro vem, carro vai
Gabriel, onde andas?
Por aí sem mãe nem pai”

 

mas a poesia também não o encontra e Rodolfo convence-a a desistir. No dia seguinte Gabriel senta-se no meio da rotunda, junto ao banquinho de madeira, à espera que o venham buscar. Quando escurece abriga-se num buraco ali perto. Repete isto todos os dias, que já são dez. Manhã, tarde, noite. Manhã, tarde, noite. Uma sombra que cai sobre ele, uma tabuleta

 

“Amo-te Pinguim”

 

e a certeza de que os donos vão aparecer, talvez não hoje, não amanhã, mas depois. Quem lá passa é o Pinguim, apelido de Ruben. Ainda está revoltado com a declaração de amor do namorado, que deixa de o ser antes de lhe contar isto. Pinguim leva a placa, Gabriel fica. Até um dia destes.

publicado por Rui Catalão às 00:00 | link da história