#08 Caos

A doença traz as pessoas pela mão. Tiago chegou ali com o cancro. Mariana deixou-se guiar pela sida. Rita tem apenas uma constipação. Todos acham que vão morrer. O consultório pinta-se de pálido. É um camaleão a variar ao sabor dos estados de espírito. Agora está numa tormenta colectiva, auto-infligida. A sala de espera tem 24 cadeiras. Apenas três estão ocupadas.

 

Ao fundo, num canto, Tiago pousa os cotovelos sobre os joelhos, a cabeça sobre as mãos, o cabelo sobre a testa. Edita o filme da sua existência. É uma longa metragem condensada em 38 anos de sacrifícios e privações. Sempre pensou

 

“Tenho de começar a trabalhar cedo e poupar, poupar, poupar.”

 

A família servia-lhe de exemplo. O esforço do avô paterno, carpinteiro. A persistência da mãe, vendedora porta a porta. A genica da tia, costureira de bairro. Nem quis ir para a faculdade. Acabou o liceu e arranjou uns biscates. Depois já não eram só biscates, passaram a coisas mais seguras. De part-time a tempo inteiro. De explorado a mal pago.

 

Pára no dia em que o corpo gelou por inteiro. Tudo é nítido. Foi ali, para lá daquela porta, que o médico disse as palavras que lhe mudaram a vida

 

– Tiago... não sei como lhe explicar isto... o Tiago tem um cancro.

 

E logo lamentou os 38 anos de austeridade. Tinha milhares de euros em poupanças

 

– São para o que der e vier

 

e o tempo a cair-lhe por uma ampulheta. Edita o filme à procura de um final feliz, como nos dramas de Hollywood. Esbarra sempre nos obstáculos. A falha não está no realizador, mas no argumento. Herdou-o dos familiares esforçados, todos já mortos, todos de cancro. O avó na próstata, a mãe na mama, a tia no cérebro. O dele está no pulmão.

 

No meio, rodeada de revistas, Mariana segura o telemóvel entre as duas mãos. Os dedos aceleram sobre o teclado. A velocidade também tem som, tec-tec-tec-tec-tec-tec-tec. Ela só conhece uma forma de estar, frenética, convulsa. Nas drogas encontrou um parceiro de aventuras, um fiel companheiro. Conheceram-se na rua, tinham amigos comuns. Entretanto passaram a sair sozinhos. Mariana tinha um lema

 

– A vida é dura e não dura

 

que servia para tudo. Mais dura era a droga que consumia. Descuidou-se. Uma seringa para o momento, uma doença para sempre. Sida rima como vida, mas aproximou-a da morte. E do consultório onde espera a sua vez de ser atendida. O tec-tec-tec-tec-tec-tec-tec prossegue. Mariana esqueceu o lema, perdeu-o no caminho até aqui. A mensagem não tem destinatário, o tec-tec-tec-tec-tec-tec-tec só serve para passar o tempo, que lá fora é escasso mas neste consultório parece-lhe interminável. Talvez seja das paredes, povoadas de cartazes com conselhos que não seguiu. Sente-se sufocada, presa. Não tem escapatória.

 

O espirro denuncia a presença de Rita. Aterrou no primeiro banco que viu, logo ao lado da entrada. Agora enrosca-se num cobertor. A temperatura não passa dos 37 graus, mas na cabeça dela é febre. E das grandes. Não sai dali sem três ou quatro anti-qualquer-coisa, para resolver o assunto de uma assentada. Também precisa de uma declaração, as faltas na escola não se justificam sozinhas. Os professores já não acreditam nela, quanto mais se chegar lá sem o papelinho.

 

A mania das doenças começou com a varicela. Ficou tão vermelha que se imaginou a explodir. No Carnaval pintou-se toda, queria imitar um tomate. Esfregou, esfregou, esfregou até sair a última gota de tinta. Por pouco a pele não foi atrás. Quando a turma da escola apanhou piolhos, atirou-se à tesoura e cortou o cabelo quase todo. Os insectos repugnam-na, por isso o melhor é nem olhar para trás. Na parede está uma aranha, ocupada numa longa empreitada. A teia ainda vai a meio, não lhe sobra tempo para atormentar uma adolescente em crise. Mais um espirro. E outro.

 

No canto oposto ao de Tiago há uma televisão. O pivô do telejornal mantém a fórmula mágica. Sorriso, piscar de olho, sorriso, caneta apontada à câmara, sorriso. Mudar está fora de questão – era o mesmo que trocar um clube por outro só porque já passou muito tempo.

 

– Eles gostam

 

é o único argumento. Eles, os telespectadores, acabam de ver e ouvir que o mundo vai acabar amanhã, com a queda de milhares de meteoros sobre a Terra. No meio do pânico nem dão conta da escusada despedida do jornalista. Tiago, Mariana e Rita reparam na notícia. Todos acham que vão morrer.

publicado por Rui Catalão às 00:00 | link da história