Domingo, 27.11.11

#27 Confusão

Parque de estacionamento subterrâneo. Leonor procura um lugar para pôr o carro, enquanto come um chocolate

 

– Gosto tanto deste, ai este caramelo aqui no meio é tão bom

 

o amor da sua vida e fala ao telefone com uma amiga. No meio de tudo isto mal tem mãos para agarrar no volante e controlar a caixa de velocidades. Curva à esquerda, mais uma volta ao piso menos dois, não há lugares, toca a experimentar o menos três.

 

Um lugar para dois. Leonor de um lado, um homem de boina do outro. Ela atira-se de frente, ele faz marcha atrás. Pummmm. Os carros fundem-se, fazem amor perante os olhos indignados dos donos. O dela é um vermelho fogoso, o dele um cinzento clássico. Estão colados, Leonor também se cola no homem, mas para lhe gritar

 

– Já viu o que fez? Já viu o que fez? O lugar era meu!

 

numa voz fininha, mais fininha do que um fio de cabelo, pode ser preto, pode ser loiro, pode ser cinzento como também é o cabelo do homem da boina, que não se assusta com o tom.

 

– A menina tenha juízo. Eu vinha de marcha atrás, ninguém entra de frente num lugar destes. Tenha juízo, menina!

 

Um impasse. Nenhum abdicou do lugar, nenhum reconhece a culpa. Os carros, unidos, parecem mesmo apaixonados. O parque está cheio de Citroens e Peugeots e Fords e Renaults e Smarts e Opels e até BMWs e Mercedes e um Ferrari, guardado entre dois pilares. Ao lado está uma carroça velha, não é bem uma carroça mas mais parece, com dois rapazes. Estão numa zona com pouca luz, quase invisíveis. E neste momento também não há ninguém para reparar neles, só os acidentados, cada vez mais irritados.

 

– Olhe que eu chamo o meu marido!

 

é o grito de Leonor, a pensar no armário que tem em casa. Só lhe faltam as portas, é mesmo um armário, quadrado até mais não. O homem da boina, que já agora se chama Silvino, ignora a ameaça e tenta uma abordagem machista

 

– Ainda dizem que as mulheres sabem conduzir. Pffff. isto é uma vergonha, está aqui a prova de que é tudo mentira. Tudo mentira!

 

que só piora o filme. Os dois rapazes no carro fumam um charro até ao fim. O da esquerda para o da direita

 

– Esta cena é da boa. Mas agora temos de trabalhar

 

o da direita para o da esquerda

 

– ‘Tá-se bem

 

e abre a porta. Caminham com meio metro de distância um do outro. Leonor pega no telefone, a voz ainda mais fininha

 

– Amor, vem aqui ao shopping. Sim, eu sei que estás ocupado, mas preciso mesmo de ti! A sério, bebé! Um homem nojento bateu-me no carro e está a insultar-me. Vem rápido

 

sem reparar neles. Silvino está distraído a fazer contas ao prejuízo, coisa para passar dos mil euros, só para falar em peças. Uma pistola nas costas dela, outra na cabeça dele. A boina cai, deixa à vista uma clareira brilhante, desprotegida como ele e Leonor.

 

Ela de joelhos no chão. O da direita apalpa-a, mas não encontra o que quer. O da esquerda entretém-se com Silvino, encostado à parede. Espreita-lhe o casaco, sempre com a pistola apontada à cabeça, sem grande convicção. Os assaltantes olham-se, os acidentados trocam expressões de medo.

 

A revista continua até o ladrão encontrar o que quer. Um telemóvel e uma bolsa com jóias. O colega manda Silvino embora, que interrompe a união do vermelho com o cinzento e pisga-se o mais rápido que consegue. Há fumo a sair do escape a arrastar-se pelo chão. As pistolas afastam-se de Leonor com um aviso

 

– Fica aí quietinha

 

agora dava-lhes jeito o Ferrari, mas a fuga faz-se na carroça do lado. Entretanto chega Fernando, o armário de Leonor. Ela puxa outra vez dos agudos

 

– Meu Féfézinho, tive tanto medo!

 

e ele só vê um carro sozinho, perto de uma parede, imagina a cena, não havia homem nenhum, foi tudo invenção dela para não o irritar com mais uma azelhice. Um ataque de fúria, uma bofetada, já não é a primeira vez. Leonor no chão, a boina de Silvino caída ao lado dela. A polícia aparece, alertada para o assalto pelas câmaras de vigilância, e leva Fernando, o armário, Féfé para a namorada, fechado no carro azul e branco.

 

Leonor fica ali, de carro e cara amolgados, sem telemóvel nem jóias. Mesmo assim é feliz. Ainda tem metade do chocolate com caramelo.

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Sábado, 26.11.11

#26 Delírio

O frio é um fantasma que lhe desce pelas costas, por dentro da camisa. Não assusta, não assombra. O frio tem medo de ser frio, por isso esconde-se atrás de um corpo quente. Um arrepio. É o frio a encolher-se, com medo de ser esmagado por um casaco ou sufocado por um cachecol.

 

Uma mesa, vinte botões amarelos, três pretos, cinco verdes, nove azuis. Um amarelo para cima, uma chuva miudinha bem lá no fundo

 

– Bom dia, este é o Hoje é Dia, o magazine da obediência na sua Rádio Pirata

 

que afinal é bem mais graúda do que parecia. Os cabos fazem mau contacto, o som electriza-se pela sala feita estúdio. Um som agudo entre as paredes. Um arrepio. Ela puxa o botão amarelo para baixo, levanta-se e anda em círculos pela divisão.

 

Lida mal com fracassos. No fim-de-semana passado transformou a cozinha numa caixa de banha, tudo frustração por não ser capaz de fritar umas batatas e uns bifes sem os queimar. Frigideiras no ar, óleo a voar, um nojo de cenário. O estúdio até está limpinho, o problema não é esse. A fórmula está errada, o sinal não sai, a voz que diz

 

– Bom dia

 

e toda aquela lengalenga já mecanizada, que por acaso é dela, não passa do microfone, não chega sequer ao botão amarelo. Estudou para ser a melhor. Na teoria não há dúvida, os diplomas emoldurados a ganhar pó no fundo do baú dizem que é verdade. Estão enterrados naquele túmulo para não ter de ouvir

 

– A nossa filha é sobredotada. A nossa filha vai ser muito importante. A nossa filha é o nosso orgulho

 

a pressão, as expectativas, a hipótese da desilusão. A prática está em jogo aqui e agora. Na ambição cabe tudo quanto o mundo tem para dar. Cabe o frio do medo e o medo do frio. Ela tem o calor nas mãos, o fogo no cérebro. E um arrepio.

 

Montou um plano. Ao longo dos anos testou um conjunto de frequências sonoras que se misturam com a voz para produzir um efeito instantâneo. Não é hipnotismo, não é uma droga, é um efeito. É magia, dirão alguns.

 

Já não há feedback, ela de volta à mesa. Vinte botões amarelos, três pretos, cinco verdes, nove azuis. Um amarelo para cima, desta vez também um verde, não há chuva miudinha

 

– Bom dia, este é o Hoje é Dia, o magazine da obediência na sua Rádio Pirata

 

nem um frio, nem um arrepio, e os botões novamente para baixo. O som passou para lá das paredes, viajou pela corrente e reproduziu-se um pouco por todo o lado. Nos países com outras falas ninguém entendeu. Por cá e no Brasil e em São Tomé e Príncipe e em Angola e em Moçambique e na Guiné-Bissau e em Cabo Verde e em Timor Leste quase todos ouviram. O sinal chegou a todos os aparelhos com áudio, desde telemóveis a televisões, de auto-rádios a estádios de futebol.

 

O efeito, o tal efeito, foi devastador. Uma em cada dez pessoas enlouqueceu de imediato, pensou estar a ouvir uma voz na sua cabeça. A maioria foi possuída por um sentimento de respeito, de dever, de obediência. Homens transformados em marionetas. A Terra nas duas mãos e na boca de uma líder, ela.

 

Botão amarelo, botão verde, na sala uma voz masculina

 

– Patrícia? Está tudo bem, Patrícia?

 

e ela calada. Imaginou que o mundo a ouvia, que o mundo a respeitava. Não há Rádio Pirata, muito menos um magazine. Há diplomas, mas das olimpíadas de tudo e mais alguma coisa e não de licenciaturas e mestrados e doutoramentos. Não há efeito, apenas uma chuva miudinha, no fundo, atrás do professor

 

– Patrícia, vai fazer o exercício ou não?

 

o microfone aberto, ela fechada. A sobredotada, a importante, o orgulho dos pais. E ela fechada. Um arrepio. O frio do medo nas costas de um corpo fracassado. A febre não pára de subir. Cama. Um delírio.

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Sexta-feira, 25.11.11

#25 Sorriso

As bocas estão cosidas sem linha. A voz sai por onde entra a dos outros. O ar só circula de narina em narina. Nem a alimentação serve de pretexto, os nutrientes chegam ao corpo pelas veias, por injecção ou transfusão.

 

– O decreto é para cumprir

 

insiste o governo. Faz cinco horas que entrou em vigor. As imposições são duras, ninguém esperava uma posição tão extremista. Os especialistas previam um corte de sessenta a oitenta por cento, nunca total, nunca de cem por cento. De nada valeu o esforço dos sindicatos

 

– É um direito dos trabalhadores em particular e de todos os portugueses no geral!

 

ao longo dos últimos meses. De nada valeram as manifestações das gerações mais jovens

 

– Querem roubar-nos uma liberdade conquistada pelos nossos pais com o 25 de Abril

 

tão crentes e tão ingénuos e tão seguros e tão vítimas. São eles quem mais sofre, quem mais se vê privado de um bem essencial na flor da idade. Uma flor que já não abrirá da mesma forma, agora murcha, agora definha, até ser um nada do que foi.

 

O governo proibiu o povo de sorrir. Quem for apanhado a fazê-lo segue directo para a prisão sem passar pelo tribunal. As penas vão dos vinte cinco aos cinquenta anos, o tempo acabará com os sorrisos que restarem aos condenados. É um processo em curso, uma imposição a alastrar-se como um vírus.

 

Por enquanto não chega a todo o lado. No interior ainda se abre a cara ao nascer do sol, a uma riqueza natural que não tem preço. Às escondidas, nas cidades, casais de namorados trocam juras de sorrisos eternos. Entregam o último

 

– Toma, como prova do meu amor

 

antes que a boca se cosa casam-na num compromisso de fidelidade. Nas ruas já se mata por um sorriso, mas o homicídio passou a crime menor, a polícia preocupa-se mais em apanhar quem não respeita a nova lei. A publicidade desaparece quase por completo, primeiro são os anúncios de pasta de dentes, depois tudo onde apareça gente feliz. Na televisão só passa o drama, o cru, o cinzento, até o preto, sobretudo quando há cortes na programação.

 

O mercado paralelo inflaciona-se. Os sorrisos vendem-se mais caro do que qualquer matéria-prima. Um sorriso vale ouro, mais que isso. Há quem pague notas e notas e mais notas e ainda mais notas em troca de um pedaço invisível de alegria. Quem tem sorrisos para dar e ninguém com quem gastar faz fortuna assim.

 

 

Ao fim de doze horas o país fecha de vez. Quem quer continuar a sorrir emigra. As pessoas azedam, as relações amargam. Nas discussões revela-se o lado mais áspero que há em cada um. Os olhos são de cachorros abandonados ou de leões em fúria. O meio termo não existe, acabou. O prazer não é prazer, parece obrigação, tudo é frio, até a carne dos corpos.

 

A produtividade cai a pique. Os bebés já não querem nascer, as mães carregam-nos meses a fio para lá do que é suposto. Na escola ninguém aprende, ninguém brinca. Aviões cheios de turistas entram no espaço aéreo português e voltam para trás logo que sentem o peso do ar. É assim até não haver mais turistas, até não haver mais aviões.

 

Tensão, conflito, revolta. Um grupo de jovens maçons reúne-se numa loja para discutir a situação

 

– Este governo está a ir longe de mais

 

conclusão dita e redita ao longo da noite. É hora de agir. Um plano para reverter a proibição. Um bode expiatório. Data, hora, local.

 

Meio ano depois, o primeiro-ministro faz uma declaração ao país, em São Bento. Pose de estadista, sem teleponto, tudo de improviso

 

– Portuguesas e portugueses

 

uma pausa, um piscar de olhos mais demorado. Quando as pálpebras se erguem e ele se prepara para continuar aparece um vulto na imagem. E o povo a ver em directo. Agarra no primeiro-ministro, os seguranças cumpliciam-se, nem se mexem. E o povo a ver em directo. Com uma faca, a figura sem rosto rasga-lhe um sorriso forçado. Amarra-o à cadeira. E o povo a ver em directo. Põe-se em frente à câmara, sem abrir a boca, e mostra um papel

 

“Acabou”

 

que o povo vê em directo. Nunca tanta gente sorriu ao mesmo tempo em Portugal.

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O projecto

Cada dia traz uma palavra nova. Com ela vem uma história. É uma proposta para um Novembro diferente.

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