#17 Mudança

As árvores inclinam-se perante a sua magnitude, oferecem-lhe as suas roupas. O homem do Outono veste-se das folhas amarelas e vermelhas que caem à sua passagem. Tem um rosto pálido, distinto da paisagem. O homem do Outono é o início do fim. Atrás vêm a chuva e o frio, à frente leva o sol e o calor.

O homem do Outono passeia pelo parque e o parque passeia por ele. É um íman, as pessoas olham-no e não conseguem desligar-se. Os animais seguem-no, como se nele houvesse alimento e amor e felicidade. O homem do Outono podia ser um homem igual a qualquer outro. Podia ter um nome. António, João, Manuel, Vítor. Mas não tem. Gosta que lhe chamem assim


– O homem do Outono


porque só vive três meses por ano, os outros nove são um sono profundo do qual não quer acordar. O perfume do homem do Outono é o da terra molhada, o da humidade que se entranha nos seres vivos. A casa é uma árvore, a maior e mais bela, sobre um lago de patos e cisnes e peixes. À noite cobre-o de tantas folhas que desaparece, tapado por um manto colorido.


Não é fácil ser o mau da fita que acorda para roubar os dias de praia, as tardes de esplanada, as noites de folia. Por isso o homem do Outono é um homem solitário. As pessoas que o olham, os animais que o seguem fazem-no por curiosidade, apenas até perceber quem ele realmente é. Depois deixam-no, seguem outro caminho, abandonam-no.


Sobra-lhe um amigo. Uma figura só, à imagem dele, que habita o vazio que há em cada estação. No Inverno, uma lareira sem lenha nem lume. Na Primavera, um jardim sem flores nem amores. No Verão, uma praia sem areia nem mar. No fim do ciclo procura o homem do Outono, senta-se debaixo da mesma árvore, cobre-se das mesmas folhas, diz-lhe um


– Obrigado


muito baixinho, que a árvore e as folhas nem ouvem – só o amigo, o homem do Outono, que olha o lago, os patos e os cisnes e os peixes, que olha o solitário das quatro estações, tem pena dele


– O Outono é o tempo das almas sem espaço


e lança estas palavras no ar, no nevoeiro que as leva para longe. Lança-as e acredita nelas, uma por uma. Por isso repete


– O tempo das almas sem espaço.


Durante anos encontram-se ali. Três meses de cada vez. A maior e mais bela árvore chega para os dois, num abraço que os aquece. Raramente falam, a gordura das palavras não lhes faz falta. Não se despedem, no fim da estação, quando um desaparece, hiberna, e o outro recomeça o ciclo.


Árvores, folhas, o parque. As pessoas, os animais. Fim de Setembro, Outubro. Não há rosto pálido, nem homem sem nome. O perfume é outro, a terra está seca do calor. Os patos e os cisnes banham-se ao sol e os peixes fogem aos pescadores. O manto está lá, mas as cores são outras. Quando o nómada das estações aparece, não encontra ninguém. O Outono adormeceu e nunca mais acordou.

publicado por Rui Catalão às 00:00 | link da história