#24 Austeridade

Octávio tem uma vida santa. A reforma cai todos os meses no banco, de onde nunca chega a sair. Vamos directos à questão: é curta e também não lhe faz falta. Com as rendas das casas que arrenda faz salário de gestor. Sem carro de luxo, culpa do amor eterno pelo seu dois cavalos e da sovinice. No Natal chama os netos ao escritório, um por um, para lhes entregar uma moeda de chocolate

 

– Tens duas opções: guardas a moeda, porque vai valer cada vez mais, ou comes o que traz lá dentro, porque te dará prazer

 

e os miúdos saem de lá confusos, com medo de tomar a opção errada. Para Octávio é um teste, um ensinamento, uma forma de marcar os descendentes. E as prendas ficam por aí, porque

 

– O importante é que eles aprendam a ser responsáveis. Nada de os estragar com mimos, o dinheiro custa a ganhar e com esta idade é preciso discipliná-los.

 

Austeridade ou prazer? Octávio nunca escolheu, o destino encarregou-se disso. Pôs-lhe a PIDE à porta de casa para levar os pais, deixou-lhe a loja de ferragens nas mãos. Se o ferro alimentasse estava safo, comia os produtos da oficina, que de qualquer forma não se vendiam. A miséria batia a todas as portas, a dele acabou arrombada. Numa noite entraram ladrões, levaram-lhe tudo. Agora já nem ferro podia comer.

 

Emigrou, trabalhou em França, na Suíça e no Luxemburgo. Fez de pedreiro e de carpinteiro e de estucador e de serralheiro e de limpa-chaminés e até de ardina. Catorze anos mais tarde, enquanto vendia o jornal, viu um anúncio em português e deu-lhe a saudade. Pegou no dois cavalos comprado nos arredores de Paris e ao fim de um mês estava em Portugal.

 

Já não era o pobre que deixara o país. Conheceu meia dúzia de homens de negócios, designação que roubou para proveito próprio

 

– Bom dia, meu senhor. O meu nome é Octávio, Homem de Negócios.

 

Comprou duas casas na Baixa, uma ninharia. Da experiência fez as obras, do engenho fez o resto. Passou a receber famílias que não tinham onde ficar em visitas à capital, cobrando

 

– Apenas uma simpática contribuição

 

em troca de um espaço acolhedor e mais limpo do que qualquer pensão de Lisboa. Os custos eram mínimos, o retorno interessante. Ao mesmo tempo não negava uns trabalhinhos aqui e ali, mais um dinheiro para guardar. A casa onde vivia sozinho, um buraco em Alfama, era mais franciscana do que uma camarata da tropa, da qual conseguiu escapar.

 

Décadas de sacrifícios. O mundo evoluiu, Octávio criou um império como se jogasse Monopólio. Nunca mais pôs as mãos na pedra nem na madeira nem no estuque nem no ferro nem nas chaminés e nos jornais só pega para ler o que lhe interessa. O arrendamento enriqueceu-o, agora com dezenas de casas espalhadas pela cidade. A austeridade deixou de ser um mal necessário. Agora trata-se bem, até vai ao ginásio. Mas todos os meses olha para a conta e pensa se valerá a pena pagar setenta euros.

 

Balneário. Toalha pela cintura, um dos homens de negócios do seu tempo ao lado, também seminu. Octávio confessa o prazer

 

– O pior é que afeiçoei-me à moça... gosto dela!

 

que jamais sentira. A figura tosca e rude afastara as mulheres ao longo da adolescência. No estrangeiro a língua também não ajudava. E de volta a Lisboa já nem pensava no assunto.

 

A moça apareceu num jantar. Vinte anos mais nova que ele, aspecto cuidado, conversa interessante e interessada. De passeio em passeio criaram uma cumplicidade. Com ela não havia sovinice, com ela o dinheiro fazia sentido. Mimos, brindes, tudo. Hoje acordou, seminu como agora, e viu-a partir com um cheque de dez mil euros. Octávio, cansado da austeridade do coração, esquece o dinheiro perdido, esquece os sacrifícios.

 

– Gosto mesmo dela.

 

Se lhe dessem uma moeda de chocolate, comia-a já.

publicado por Rui Catalão às 00:00 | link da história | comentar