#10 Fé

Num cubículo quadrado que sobe e desce estão dois homens. É um elevador no edifício de uma grande empresa. O da esquerda tem uma queimadura no braço e uma cicatriz na testa, marcas de problemas passados. O da direita tem uma mancha de vinho num sapato, ainda fresca. Ambos levam as mãos nos bolsos. Uma mulher entra no quarto piso. Mini-saia, longos cabelos pretos e uma voz rouca

 

– Boa tarde, meus senhores

 

que os transporta para outra dimensão. Um não tira os olhos do rabo dela, o outro mal disfarça o desejo de fazer o mesmo. Estela é a jovem directora, eles os velhos súbditos. Saem todos no nono piso. Corredor, sala de reuniões, seis cadeiras – três para um lado, três para o outro. Ocupam o lado nascente da mesa, o poente fica para os clientes. Discutem as condições do negócio, mas só ela fala. Se os outros abrem o bico Estela sobe logo o tom de voz. Por cima dela só Deus fala.

 

Apertos de mão. Um, dois, três e dê cá mais um e outro. Adeus, clientes. Abre-se uma garrafa de champanhe. Bebem um, dois copos.

 

– Parabéns a todos, demos mais um passo para internacionalização da nossa empresa

 

que no fundo vai ser apenas uma pequena fábrica em Badajoz, quase nem conta como estrangeiro. “Parabéns a todos” também será um exagero, Estela fala apenas para três pessoas. Além de João e Joel, a dupla do elevador, Gonçalo é o único a escutá-la. Fá-lo com a atenção de quem vê naquela mulher a perfeição do género. Tem por ela uma admiração incondicional. Foi Estela que o contratou, um prodígio saído da faculdade. Ficou-lhe agradecido, ao ponto de se transformar num lambe-botas. Ou sapatos de salto alto.

 

O escritório tem um grande retrato de Estela. Parece a imagem de um líder político, um ditador. E de certa forma é isso que ela é aqui dentro. A mandona. A implacável. A secretária está limpa, com dois montes de papéis: assuntos pendentes e assuntos dependentes. O que está resolvido já não faz falta em cima da mesa, é logo arquivado.

 

Festa acabada. João e Joel descem ao rés-do-chão, passam a porta, atravessam a rua. Entram no bar da esquina, bebem mais. Gonçalo ainda está sentado ao computador. Trabalha ou faz de conta, interessa é que Estela o veja. Mas ela vai embora sem dizer nada e ele perde-se de raiva. Dois minutos depois também sai.

São 18h30, Estela entra na igreja da paróquia. Passa o corredor entre os bancos, de frente para a cruz. Uma, duas, três, quatro, cinco, seis filas. Pára na sétima. O padre aparece por uma porta, num canto da igreja. O coro canta

 

– A-le-luuuuuuui-a

 

e o povo acompanha

 

– A-le-luuuuuuui-a

 

uns afinados, outros de cana rachada. A fé não escolhe tons de voz, são todos bem-vindos. A igreja está fria, gelada, culpa da porta aberta e da brisa de Novembro que por ela entra. Cá fora um pedinte aquece a mão para esticá-la no fim da missa. Uma em cada dez pessoas deixa moeda. Com sorte o dinheiro dá para uma sandes.

 

Igreja vazia, sobra Estela. O encontro com o padre há muito está marcado. A mão sobre o ombro dela indica o confessionário. Ele entra pelo meio, ela vai pela esquerda. Sentam-se. O padre puxa a tela, destapa a grelha e uma luz ténue ilumina o rosto dela. Estela só lhe distingue a voz

 

– Minha filha, o que te traz aqui? Não tens vindo à igreja. Zangaste-te com Deus? Não faz mal, Ele perdoa.
– Padre...

 

e pára, a estudar o passo seguinte

 

–... tenho um problema, uma dúvida, um dilema, sei lá eu o que é isto. Tenho de contar isto a alguém, não consigo guardar para mim.

 

Se espreitasse pela grelha veria o padre de olhos bem abertos, como se fizesse força para ouvi-la melhor. Não precisa disso, é novo, tem bom ouvido, e se é um mensageiro de Deus então ainda tem muita vida pela frente. Mãos nas pernas, corpo tenso, Estela tosse. Afina as cordas vocais.

 

– Esta tarde fiz um negócio que vai render mais de um milhão de euros à empresa que dirijo. É bom, é fantástico, eu sei, mas tem algumas implicações. E os três colaboradores que trabalham comigo vão sofrer com elas. A esta hora, João e Joel já devem ter a polícia a interrogá-los. São suspeitos de crimes de corrupção activa e fraude. É mau, é terrível, eu sei, mas teve de ser, para distrair as atenções do essencial. O pobre do Gonçalo, um miúdo com muita cabeça mas pouca vida, vai acabar ainda pior. Tive de desviar, digamos assim, uma pessoa que estava a perturbar o negócio. E ele será o bode expiatório. Daqui a dois dias, no máximo, estará preso.

 

O padre tem os olhos quase a saltar da cara. Engole em seco, mas continua a escutar sem dizer uma palavra.

 

– É pecado, é crime, eu sei, senhor padre. Mas não tive outra hipótese. Esta noite deixo Portugal e nunca mais me apanham. Um milhão chega para viver feliz, longe e sem chatices. Não posso dizer-lhe para onde vou, senhor padre, mas peço que aceite a minha confissão. Quero estar em paz, que Deus me ajude.
– Mas, mas... menina Estela, a menina devia entregar-se à polícia. Deus perdoa tudo, perdoará também estes seus actos. Mas deve entregar-se, por favor faça isso. É o melhor.

 

Ambos sabem que isso não vai acontecer. Estela acalma-se, o corpo relaxa, a tensão alivia. O peso da confissão desce da cabeça até aos pés, fica pelo chão. Ela reza pais nossos e avés marias, que o padre acompanha em silêncio. Ainda digere o que ouviu, em três anos de sacerdócio é a primeira vez que lhe confessam algo tão grave. O sigilo é sagrado e inquebrável.

 

Estela despede-se

 

– Até sempre

 

e sai do confessionário sem esperar que o padre faça o mesmo. Bancos, corredor e Estela de costas para a cruz, para a fé, para Deus. À porta vê o pedinte sem a mão esticada, porque o dia foi bom, o dinheiro chegou para uma sandes. Abre a carteira, tira uma nota de cinquenta, larga-a sobre o homem e vai embora. Foi o último segundo em que acreditou em Deus. Para o pedinte, foi o primeiro.

publicado por Rui Catalão às 00:00 | link da história | comentar | ver comentários (2)